segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MORRE FIDEL CASTRO, O SONHO SE RECICLA, MAS NÃO MORRE!


Rapidamente se espalhou pela internet a notícia da morte de Fidel Castro, líder da revolução Cubana e eterno ícone para comunistas e muitos socialistas, mas o que a morte de Castro traz à tona?

Intolerância e paranóia

Oficialmente a guerra fria acabou em 1989 e culminou com o fim da União Soviética em 1991, ou seja, a guerra entre os sistema capitalista e comunista foi encerrada a 25 anos. Mas parece que para muitos brasileiros o ano de 89 nunca chegou e ainda vivemos no auge da Guerra Fria, em uma aura de permanente tensão e em vias de sermos absorvidos pelo sistema soviético a qualquer segundo.
A paranóia gera intolerância e qualquer coisa que sequer lembre ou pareça com comunismo é atacado, achincalhado e rejeitado, não importa mais o contexto.

A morte de Fidel Castro no último dia 25, trouxe a tona toda essa intolerância e ódio de uma forma exacerbada. Pela internet declarações de ódio, comemoração pelo falecimento, ofensas das mais densas e pesadas e em especial no YouTube, vídeos de fascistas que estariam presos em outros países mas fazem sucesso aqui, vomitando os mais bizarros absurdos para propagar ainda mais esse ódio e fortalecendo a paranóia anti-comunista.
Confesso ter sido um exercício muito difícil de auto-controle para não entrar na onda dos ignorantes e entrar em embates ofensivos que não teriam nenhum ganho e nenhuma função além de exteriorizar meu profundo desprezo por essas figuras que tanto falam sem nada saber.

Toda história tem 2 lados.


Logo no dia seguinte à morte de Fidel, gravei um vídeo para o canal RPM no YouTube tentando fazer uma reflexão "limpa" sobre Fidel.
A história de Cuba, de Fidel e da Revolução Cubana em si não são simples, envolvem uma gama gigantesca de pontos de vista, ângulos e ponderações a serem levadas em conta, não é possível avaliar um cenário histórico que se inicia na década de 50, tem seu rompimento agora e ainda assim persiste em um simples "bom ou mal", "herói ou tirano", "mito ou demônio" e qualquer tentativa nesse sentido inevitavelmente esbarra na ignorância e no fundamentalismo ideológico que ignora tudo aquilo que não concorde com sua própria visão ou opinião, postura essa que infelizmente tem se espalhado pela população brasileira e mundial como um vírus altamente contagioso e incurável. Nenhum aspecto que envolva Fidel e Cuba é inteiramente bom nem inteiramente mal, como todo sistema político tem seus vícios e prioridades, ganhos e perdas.

Uma coisa JAMAIS deveria estar sendo ignorada e é exatamente o que tem sido deixado de lado. Fidel Castro foi e está eternizado como uma figura histórica mundial que como tal, deve ser estudada, debatida e avaliada a fim de aprendermos com isso e nos aprimorarmos como sociedade. Nem mesmo uma das figuras tidas como das mais nefastas da história humana pôde ou pode ser relegada ao esquecimento, como é o caso de Adolf Hitler que ensinou muito sobre nós como serem humanos, testou e ultrapassou limites da sociedade e até hoje é objeto de reflexões e debates, porque com Fidel haveria de ser diferente?

O que importa de verdade a cada um?


É fato inegável que o regime cubano tolheu muito da liberdade do povo, limitou o alcance de sua cultura e condicionou padrões sociais, doutrinando em vias de fato seu povo a amar a revolução. Por outro lado é também inegável que, com essa mesma postura e a despeito de décadas de embargos econômicos e toda série de perseguição política e campanha midiática mundial contra o sistema do país, Cuba conseguiu façanhas que parecem impossíveis à países onde figura o processo democrático como base de apoio à sociedade, tais como a erradicação da fome, do analfabetismo, da inexistência de déficit habitacional e ainda o incansável estimulo ao progresso em áreas como medicina,  biomedicina e educação, além de índices de desenvolvimento humano que fazem inveja a muitos países livres europeus por exemplo e principalmente a nós brasileiros.
Não se pode ignorar ou apagar da história que, principalmente durante a revolução e no início de implementação do regime, muitas pessoas foram executadas, perseguidas e assassinadas, mas também não se pode ignorar a realidade do pequeno país antes dessa mesma revolução e da realidade degradante, miserável e submissa à qual a população era submetida antes de Fidel.


Diante disso tudo, fica a pergunta. "O que importa de verdade para cada um?"
Não se deve buscar consenso nesta resposta, uma vez que nem entre o povo cubano esse consenso existe, pois ao passo que o povo em geral demonstra amar o regime que vive e não estar disposto a abrir mão dele, pessoas vem optando por abandonar o mesmo país e regime desde o começo e pelos mais variados motivos.

Quando pensamos em Cuba e no que ela é graças a Fidel Castro, devemos nos perguntar o que realmente importa, a liberdade ou a igualdade, a possibilidade de vencer financeiramente na vida ou a erradicação da fome, a chance de ser rico ou as condições básicas e mínimas de dignidade humana a toda uma população sem exceção?

Fidel Castro e Cuba são uma prova histórica de que alternativas existem e que podem trazer grandes benefícios e que, com os devidos ajustes e reflexões podem levar a alternativas muito melhores ainda não experimentadas.

Seja a favor ou não de Fidel Castro e o regime cubano, não importa, mas procuremos não nos comportar como tietes tapadas e cegas que enxergam o lado bom de algo ignorando completamente seus problemas ou enxergar apenas defeitos enquanto nos fazemos de cegos, surdos e ignorantes quanto aos benefícios para lá de invejáveis que podem estar à frente de nossos olhos.


Fabiano "Abafh" Ruiz




Fidel Castro por Eduardo Galeano:


"Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.
E nisso seus inimigos têm razão.
Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.
E nisso seus inimigos têm razão.
Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.
E nisso seus inimigos têm razão.
Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.
E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.
E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia a la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar..."

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