sábado, 10 de dezembro de 2016

FUNDAMENTALISMO IDEOLÓGICO - Um câncer em nossa sociedade.

O termo na verdade não é muito difundido, nem tenho certeza de que exista, mas reflete sim um comportamento usual e que tem se tornado padrão, em especial na sociedade brasileira e arrisco dizer que está na raiz dos maiores males que enfrentamos e do caos social onde estamos sendo rapidamente mergulhados, sem nenhuma projeção positiva de nos livrarmos. 

Mas o que é fundamentalismo ideológico?

De acordo com a Wikipedia, fundamentalismo é  "qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos; integrismo.", ou seja, seguir cegamente um conjunto de fundamentos, independente do que aconteça ou surja contrariando esses preceitos. Já a ideologia é um conjunto de fundamentos e postura, então, fundamentalismo ideológico é a defesa cega de uma determinada postura ou pensamento ideológico.

É claro que, quando nos identificamos com uma ideia ou filosofia, instintivamente tentamos defender esse ponto de vista que acreditamos e isso, além de natural, é um exercício excelente para compreender melhor o que se defende e conhecer outros pontos de vista, o que só pode contribuir para opiniões mais sólidas e fundamentadas. Infelizmente isso se torna altamente nocivo e desfigura a própria ideologia quando essa defesa se torna fanática, desprovida de argumentos e que se cega para tudo que a contrarie, exatamente nesse momento, a defesa de um ideal se torna fanatismo, se torna FUNDAMENTALISMO IDEOLÓGICO!.

De onde vem e porque existe esse fanatismo?



Não se trata de um instinto natural ou um comportamento esperado em uma sociedade, nós aprendemos ao longo das últimas décadas e de forma mais acentuada nos últimos anos a nos tornar fanáticos e intolerantes em tudo e nesses tempos sinistros, ainda mais quando se trata de uma ideologia.
Se por um lado, desde a infância ouvimos histórias cuja moral é nos ensinar a valorizar e respeitar as diversidades dos mais variados tipo, uma força social alavancada e potencializada pela mídia de entretenimento e manipulação distorceu esses conceitos, os tornando superficiais, falsos e secundários. Desta forma, com a desculpa de vivermos em um mundo supostamente competitivo e que nossa natureza também seria supostamente competitiva desde a mais tenra idade, tudo vem se tornando uma grande competição em todos os campos. Se por um lado, TEORICAMENTE aprendemos que reconhecer um erro e nos desculparmos é algo nobre e engrandecedor, a sociedade transformou o ato de estar errado ou enganado em um sinônimo de DERROTA, debates e trocas de ideias passaram a ser verdadeiras batalhas campais e ser superado em uma argumentação, um sinal de derrota, uma marca do fracasso.

Nossa sociedade se resume a vitoriosos que são exibidos em grandes vitrines para serem adorados e copiados e aos derrotados que se tornam sinônimo de vergonha, escondidos, cabisbaixos e subjugados pelos vitoriosos em qualquer campo. A distorção chegou a tal ponto e se aliou a uma superficialidade e a necessidade de parecer bem frente a pessoas que sequer se conhece, como é no caso da internet, que qualquer coisa vale para parecer um vitorioso e reduzir o opositor a cinzas, ainda que a única pessoa convencida disso seja você mesmo ou que o alvo de disputa mortal seja uma postagem de opinião no facebook.
Tenho certeza que minha próxima constatação deixará muito incomodada a classe humorística e os adeptos dos famosos "memes" da internet, mas não tenho como deixar de fora da análise o papel dessas atividades na valorização do fundamentalismo ideológico, pois um dos assuntos com maior repercussão e frequência é exatamente o escárnio feito sobre as supostas derrotas em argumentações e a valorização dos "foras". Quem nunca assistiu e mesmo se divertiu quando, ao fim de uma declaração polêmica, surgem os óculos escuros e a música "turn down for what" como um exemplo da postura da qual falo.
Existe ainda um terceiro fator ao meu ver que desempenha um papel vital nesse comportamento social de fanatismo ideológico, a religião. É claro que não busco aqui generalizar nem todas as religiões, tampouco seus adeptos e seguidores, mas é na pregação de muitas delas que se aprende que, quando nossas convicções são testadas ou surge a dúvida, não se trata de nada que não um teste de fé e que a dúvida deve ser ignorada, ou seja, ignore qualquer argumentação que viole a lógica que aprendeu ou escolheu abraçar e isso acaba por se arrastar para qualquer aspecto da vida social.

Por fim, todas essas formas de distorção e doutrinação ao ego e a associação à imagem de que ter uma teoria ou ponto de vista questionado é sinônimo de derrota e que mudar de opinião não te torna uma pessoa que evolui e muda com novas idéias e conceitos e sim um fútil, volúvel e de personalidade fraca tem nos tornado verdadeiros fanáticos incapazes de ouvirmos ou nos submetermos a qualquer argumentação ou contestação, seja ela qual for.

Porquê o fundamentalismo ideológico é responsável pelo caos social para o qual caminhamos?

Na raiz do atual caos social e institucional que o país vive , ou melhor, a luta pelo poder na qual estamos em meio ao fogo cruzado, está a política. Estimulados pela mídia e alimentados por um inerente e inegável analfabetismo funcional em nossa sociedade, fomos divididos basicamente em 3 grupos, a "direita", a "esquerda" e os "neutros" que ou não se importam, ou se recusam a tomar qualquer posição sobre o que se passa, os "neutros" é um grupo formado principalmente por anarquistas, onde eu DEVERIA(?!?!) me enquadrar, mas não é o caso.

Dos grupos nos quais fomos divididos, sem sombra de dúvidas, os que são mais profundamente dominados pelo fundamentalismo ideológico é a "direita", mas infelizmente não são os únicos. Vejamos um exemplo de como esse fundamentalismo é capaz de atrapalhar e anular qualquer debate ou troca de informações com um exemplo que vivi nos últimos dias.

Recentemente fiz um vídeo para o canal RPM - Revoltas por Minuto sobre as 10 medidas contra a corrupção e o contra golpe que o judiciário tomou nessa tentativa de efetivar sua ditadura judicial no país (veja aqui). Como eu esperava e acho muito bom que aconteça, fui contestado por uma pessoa que usa como avatar do youtube uma imagem dizendo que compareceu às manifestações do dia 04/12, exatamente contra a qual eu falava no vídeo e de várias formas contestou minhas alegações. Como gosto de debates, lí suas argumentações e continuei "dando corda", mesmo tendo quase certeza de para onde caminharia o debate. Foi então que ele alegou que a operação Lava-Jato e a equipe de Sérgio Moro teriam recuperado bilhões de reais da corrupção, por desconhecer completamente tal fato, pedi que ele me mandasse algo para comprovar a alegação, ele me mandou o seguinte link já se precavendo de que eu só acreditaria no que quisesse, independente dos argumentos (eu né!?):
De fato, o título da notícia é claro e enfático ao AFIRMAR que a Lava-Jato já havia recuperado 5 Bilhões de Reais, mas se trata de "O Globo", e como sabemos, a especialidade dessa mídia é manipular e distorcer informações, além de explorar o fato de as pessoas debaterem muito mais os títulos do que o conteúdo de notícias, como falei no post "Manual Prático para não ser feito de IDIOTA pelas mídias", portanto, fui verificar o link e rapidamente, depois de ler, respondi a argumentação dele como seguinte trecho extraído da notícia que ele escolheu me enviar:



"Até agora, R$ 659 milhões foram repatriados. O restante, está espalhado pelo mundo. Para confirmar o retorno de todo o dinheiro, em regra os países exigem que os donos dos recursos estejam condenados pela Justiça."

Respondi com esse trecho como uma forma de demonstrar que a informação não confere e também atestar que é exatamente assim que as mídias manipulam as informações e consequentemente as opiniões da população. Automaticamente ele ignorou o engano, insistiu que o canal deveria ajudar a continuar prendendo os corruptos, independente da recuperação ou não do dinheiro. (como assim?!?)

Infelizmente esse tipo de fundamentalismo não é exclusividade da direita, ela também existe na esquerda que, ou ignora qualquer alegação de falha nos governos no PT ou ignora qualquer benefício trazido por eles, mas que estão juntos na oposição à direita. Também está presente nos "neutros" que se recusam a participar ou tomar conhecimento no debate ou na situação política do país, a despeito da necessidade de resistência, e nem que seja só pela resistência, à escalada fascista e liberal que tem tomado o país.


Tudo que discorde do ponto de vista de um fundamentalista ideológico é ignorado, diminuído ou distorcido e tudo que concorde com ele, aumentado referendado e repetido, usado como escudo para que não seja obrigado a rever ou repensar sua postura ou ideia, o que parece ser obrigatoriamente se assumir como um fracassado.

Como resultado temos uma infinidade de verdades prontas e invioláveis, inquestionáveis, lados agarrados a ideias e conceito, por mais vencidos ou questionáveis que sejam e assim, o debate não acontece, quando acontece não evolui e quando evolui é descartado ao final, já que ninguém dentre os envolvidos é mais capaz de repensar ou mesmo pensar em admitir que pode, de alguma forma estar errado. Assim caminhamos para o caos, somos instrumentos, massa de manobra e ególatras burros, auxiliando o poder a praticar nossa própria decadência.


Fabiano "Abafh" Ruiz

PS. Acho que vale destacar que, durante minha vida, antes de me tornar anarquista e ateu, já fui de direita, religioso (várias religiões), racista, xenofóbico, desinteressado e já cheguei até mesmo a "flertar" com o fascismo. Nada disso me é objeto de vergonha, muito pelo contrário, foram fases vividas e vencidas porque nunca tive medo ou vergonha de repensar em tudo, inclusive de ME repensar e certamente o farei ainda várias e várias vezes.

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