sexta-feira, 18 de novembro de 2016

RÓTULOS IDEOLÓGICOS - PERIGOSOS, MAS ÚTEIS (!?!)

Direita, esquerda, socialismo, fascismo, liberalismo, o número de rótulos existentes é tão numeroso quanto seus significados e interpretações. Mas precisamos mesmo de rótulos?

Particularmente eu não gosto muito de rótulos por considera-los limitadores, ainda mais nos dias atuais e da forma que a sociedade tem se portado, no entanto, acredito que não sejam apenas úteis, como necessários.
A principal função do uso de rótulos, sejam eles ideológicos, profissionais, políticos e afins é sintetizar uma ideia grande e complexa em uma só palavra, isso faz com que seu uso seja indispensável. Imagine por exemplo se toda vez que alguém me perguntasse sobre posicionamento político e ideológico, eu, ao invés de dizer que sou anarquista, tivesse que dizer que acredito na capacidade humana de se regular socialmente e de ser colaborativo, dispensando assim o uso ou mesmo a presença de qualquer agente regulador ou doutrinador, seja ele governamental, policial ou religioso, isso fazendo o resumo mais curto que consigo imaginar?

Essa é a função e utilidade principal dos rótulos e , consequentemente, identificar pessoas que pensam de forma semelhante e assim formar grupos sociais, etc, e DEVERIA terminar por aí.

De úteis a PERIGOSOS e NOCIVOS.

Os rótulos são úteis e necessários pelos motivos que citei e uma série de outros, mas existe hoje uma aversão por grande parte da sociedade em aderir ou aceitar rótulos.
Não é raro, principalmente quando se trata de política e ideologia, que as pessoas fujam dos rótulos, tentando se enquadra como uma exceção ao que o grupo que faz parte representa. Daí então o rótulo padrão passou a ser "não gosto de rótulos" ou então "não sou tal coisa, mas concordo com", ou seja, o rótulo da atualidade é não ter rótulo, ou pelo menos tentar não ter.
Por um lado, os rótulos realmente passaram a ser problemáticos quando perderam sua capacidade de ser adaptados, maleáveis e se tornaram quase excludentes. A necessidade da sociedade em se sentir exclusiva, única e diferente se arrastou aos grupos sociais aos quais os rótulos se destinam, criando assim uma verdadeira batalha campal, não de ideologias contra ideologias, mas entre membros de um mesmo grupo ideológico. Se você se classifica como anarquista por exemplo, você obrigatoriamente tem que seguir uma certa lista de comportamentos e opiniões, caso contrário você já não pode se considerar como tal, segundo o pensamento padrão dos próprios anarquistas, e assim, os anarquistas hoje, pouco disputam terreno com outros seguimentos ideológicos contrários e muito discutem entre si qual anarquismo é o verdadeiro ou o correto, beirando a infantilidade do "meu anarquismo é melhor que o seu", "se vc pensa diferente disso, então você é qualquer coisa, menos anarquista".
Vejam bem que aqui, o anarquismo foi apenas um exemplo, pois isso acontece hoje dentro de todos os segmentos, ideologias, filosofias e afins.
A partir do momento em que os rótulos assume essa função excludente e limitadora, perdendo sua capacidade de adaptação e de assimilar particularidades e diferenças, eles passam a ser realmente nocivos, problemáticos e dispensáveis.
Nesse ponto vou usar a mim mesmo como um exemplo. Me considero abertamente anarquista e faço questão de usar o rótulo ideológico, mas não são raras as vezes que enfrento pesadas críticas e tentativas de exclusão por não segui o padrão atual da ideologia anarquista. Quando acho necessário e relevante, não me impeço de alinhar ou participar de partidos políticos, grupos ideológicos diferentes com o mesmo objetivo naquele momento, entre outras coisas que são motivo de indignação por parte de muitos radicais que me enquadram como uma aberração ideológica, falso anarquista, infiltrado, entre outros. Continuo e continuarei me classificando como anarquista independente disso por um motivo simples que se aplica ao caso, anarquismo é a negação de todo tipo de doutrinação e ninguém irá me ditar o que ser, fazer ou acreditar e isso é o que me faz, ao meu ver, anarquista, não precisar de aval de ninguém para se-lo.

Debater internamente é ruim?

Não que o debate interno não seja importante e necessário, claro que é. O mínimo que se espera quando se "abraça" uma ideologia ou se "levanta uma bandeira" é saber do que se trata, saber o que defende, conhecer as vertentes, até mesmo para saber se aquilo tem mesmo algo a ver com o que se pensa e não é apenas uma leve simpatia, o que não é também nenhum crime.
Como tudo na sociedade, existem alguns limites que também são necessários. Ideologias devem ser até certo ponto maleáveis e inclusivas, mas nunca contraditória. Isso é de suma importância, pois evita aberrações ideológicas e imbecis que levantam bandeiras que desconhecem a tal ponto que defendem exatamente o que seu portador levanta, como por exemplo um direitista liberal pedindo saúde de qualidade e pública ou exigindo intervenção do estado em um determinado assunto, ou então um socialista ou comunista pregando as vantagens de privatizações de empresas públicas. Sim, é mesmo bizarro, mas principalmente na internet, isso se tornou algo comum e corriqueiro.

Covardia ideológica.

Apesar de todos os motivos que falei até agora para que muitos evitem ou mesmo recusem rótulos, esses não são a real motivação da maioria das pessoas que se negam a assumir uma determinada postura ou ideologia, se trata na verdade de pura covardia, desonestidade intelectual da mais vexatória.
Para esses covardes, debater sobre um determinado assunto ou sustentar uma postura é cansativo, demanda conhecimento e retórica, portanto, para não se correr o risco de ser exposto como idiota que é, muito mais fácil repudiar o rótulo e sair covardemente pela tangente, essa tática é amplamente utilizada e tem se mostrado outro padrão atual. Quantas vezes não questionamos algumas pessoas por idéias ou posturas duvidosas e/ou contraditórias e obtemos como resposta coisas como "Eu não entendo nada sobre esse assunto, então eu nem debato", "Assunto X não se discute", "Cada um tem sua opinião", "Eu não sou tal coisa, só concordo com algumas idéias".
Saibamos que, quando nos deparamos com respostas assim, é puro desperdício de energia e tempo insistir em contrapor uma idéia, pois ser´ignorado ou o autor assumirá uma postura de escárnio ou mesmo agressividade, tentando empurrar em nós, algum rótulo que repudie, e em 90% dos casos, sequer sabe o que significa.


Fabiano "Abafh" Ruiz

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