quarta-feira, 23 de novembro de 2016

FÁTIMA BERNARDES, UM POLICIAL E UM TRAFICANTE - Um conto sobre monstros.


Escrevo apenas agora sobre o assunto porque antes tive que passar por todo um processo. Primeiro tive que observar muito bem o que acontecia para poder acreditar no que estava assistindo na internet, depois passei em frente a uma câmera por quase uma hora cuspindo tudo o que penso sobre o assunto (vídeo ainda a ser editado e postado no canal), tomar fôlego e só então ter o equilíbrio que julgo necessário para escrever sobre um assunto dessa natureza.

Mas afinal, o que aconteceu?


A apresentadora Fátima Bernardes, em seu programa, apresentou um quadro que tinha como objetivo promover uma série ainda a estrear sobre o dia a dia de um atendimento de emergência (tipo Plantão Médico), e apresentou a seguinte situação aos presentes no palco: "Se você é um médico socorrista e chegam à emergência, um policial levemente ferido e um traficante em estado grave, quem você atenderia primeiro?". Logicamente e como é de se esperar,  maioria das pessoas se dirigiu a opção do traficante, afinal, era o que necessitava de atendimento de emergência.
Quase que imediatamente, a internet entrou em convulsão por conta de incontáveis pessoas indignadas e inconformadas com a decisão da maioria presente, alardeando aos 4 ventos que isso se tratava de um absurdo, que bandido tem que morrer e enfim, dando início ao "Eu escolho o policial".
Apesar de obviamente ficar puto, isso não me soou tão aterrador visto o número de imbecis reacionários que começaram a se exibir nos últimos meses. O problema realmente começou quando um número gigantesco de MÉDICOS começou a exibir plaquinhas no Facebook e outras redes dizendo que escolheriam o policial e também de um legista que, sadicamente, declarou que ele sim, preferiria atender primeiramente ao traficante.

Para encerrar o show de horrores com chave de ouro, me deparei com uma série de votações online análogas à situação que viraram instrumento de medição de força entre direitistas e esquerdistas, com destaque a votação ao vivo que dava ao internauta a opção de "salvar Lula" ou então "salvar Moro", seguido da organização de um evento pelos mesmos dementes que organizaram um ato de apoio a Trump na Paulista, convocando para um ato intitulado "Eu escolho o policial". 

Bestas sedentas por sangue.

Na verdade, esse "paradigma moral e ético" não é novo e é usado dessa forma ou em suas variantes como uma questão de ética que me lembro já ter ouvido e falado em sala de aula, ainda criança, por volta dos 10, sobre tal assunto e novamente uma outra variante no colegial, essas que posso me lembrar claramente.
O primeiro e crasso erro foi da direção do programa que deveria ter imaginado que no atual momento que o país e o mundo passam, um paradigma dessa natureza teria consequência. Apesar que duvido sinceramente que não tenha sido exatamente esse o objetivo, criando uma polêmica nacional para gerar audiência, nenhuma novidade até aqui.
Não fosse ruim o bastante as pessoas se acharem no direito de decidir sobre a vida ou morte de outra pessoa baseada em conceitos torpes, por parte de profissionais de saúde a situação se torna nojenta, repugnante e vou além, se existisse de fato um conselho de medicina minimamente preocupado com a qualidade dos profissionais no mercado, processos administrativos e cassação de licenças seriam aplicados.

Médicos passam mais de meia década estudando e fazendo residência e, ao se consagrarem como profissionais da saúde, fazem um juramento que sintetiza a natureza de sua profissão, o de valorizar, zelar e salvar TODAS as vidas que sejam possíveis salvar.
Sob hipótese alguma cabe a um médico julgar, muito menos pré-julgar uma vida que precisa de auxílio e não seria diferente se o quadro fosse inverso e o ferimento leve fosse do traficante e a gravidade sofrida pelo policial. Existe um critério simples, bem difundido e inviolável em qualquer ambiente médico que é dar a prioridade no atendimento de acordo com a gravidade e urgência do caso e ABSOLUTAMENTE NADA a mais. Médicos que pensam da forma deplorável que exibiram envergonham toda uma classe médica, envergonham a sociedade. Saber que nossas vidas e saúde estão a mercê e na dependência de seres que não passam de mercenários e engrossam a massa social psicótica e ávida por vingança, sangue e morte é apavorante, essas pessoas jamais poderiam ser médicos, aliás, arrisco dizer que sequer possam ser tomados como seres humanos.


O ódio acima de tudo.

Toda essa situação, todo esse revanchismo é alarmante e sério por expôr a que ponto nossa sociedade se desumanizou e bestializou e sinaliza para um rápido agravamento da situação. Quão grande é a cegueira desses animais que não se dão conta do mundo bestial, violento e sanguinário que estão criando para si e seus filhos? Quão doente é uma sociedade incapaz de diferenciar entre conceitos de justiça e vingança? Quão violento é um povo que julga ter o direito de, a despeito de qualquer lei ou direito individual, decidir sobre o destino e o fim da vida de alguém? Quão cega é uma nação que não é capaz de, nos dias da super informação, olhar para o lado, ver exemplos de erros e acertos pelo mundo todo, e entender o que funciona ou não, o que resolve ou não?
Na última "onda" semelhante que assistimos e conduzimos, uma série de linchamentos se espalhou pelo país, puxado por comentaristas e jornalistas bestiais e irresponsáveis e só teve um freio quando uma deficiente mental foi torturada e morta por um grupo de assassinos que se acharam justiceiros por um "engano".
Mais uma vez, a mídia não só tem puxado, conduzido e alimentado essa onda de ódio e intolerância no país e a sociedade, como uma legião de zumbis movidos pela sede de sangue, parece se refestelar com a violência sem limites como uma forma de se reafirmar, de embasar sua arrogância e seu fascismo ao se colocarem acima do que eles consideram o "resto" da sociedade.
Se a ideologia cristã for levada em conta, visto que a maioria desses se intitulam bons cristãos e cidadãos de bem, o "ame ao próximo como a si mesmo" revela um auto desprezo e o quanto, intimamente se odeiam e desprezam. Se levada a cabo a crença de que viveremos uma era de apocalipse (do latim REVELAÇÃO), esses se revelam nessas horas, como os piores demônios do quais eles mais temem.

Não se trata de pacifismo ou a moda do politicamente correto, longe de mim ser visto como um pacifista, sou pela luta, pelo combate, pelo enfrentamento e pela revolução, mas lutar por ideais e sonhos contra aquilo que escraviza, oprime e limita a humanidade é uma coisa, levar isso ao nível do "finalmente" é uma coisa, vingança, ódio e morte contra tudo e todos indiscriminadamente sem objetivo algum é outra muito diferente.

Se escolho entre o policial ou o traficante? Escolho a mim mesmo e a humanidade que ainda creio ter. Não quero que meus filhos vejam em mim, as bestas sanguinolentas que vejo hoje tomando a sociedade.

Fabiano "Abafh" Ruiz

2 comentários :

  1. cara eu acho que é assim, em uma situação totalmente absurda, mas creio que seja o que veio a mente das pessoas, o que salvar um ser humano essencialmente bom ou um mal, claro que um medico nao teria como conhecer profundamente os ali encontrados,mas é o que as pessoas pensaram, não levaram em consideração que na sociedade hoje o simples ser um policial não significa ser bom, assim como ser traficante de longe significa ser mau, mas dentro da capacidade em que nos encontramos em refletir e raciocinar, não acho que foi uma reação absurda na optica da sociedade, é claro que na minha sim.em vez de tu usar palavras como besta idiota e sei la o que,devia usar seu tempo pra fazer um texto que pudesse abrir a mente das pessoas, pra rever seus conceitos e verdades absolutas para que elas pudessem encontrar a realidade.

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    1. Boa tarde Jefferson.
      Em primeiro lugar, obrigado pelo comentário e participação, é muito importante para sempre melhorar o trabalho do blog.
      Entendo o seu ponto de vista e nem tiro a sua razão, mas se eu fizesse uma abordagem pacífica e conscientizadora mais calma, não seria eu escrevendo, não está em mim esse tipo de abordagem, seria totalmente artificial.
      Invejo quem ainda acredite que o caminho para uma solução na nossa sociedade possa vir por meio de qualquer postura ou retórica pacifica ou pacifista, no entanto, o que estamos assistindo hoje é uma escalada violenta e intolerante por gente que na verdade, parece ter perdido completamente toda capacidade de raciocínio, todo bom senso e é movido por puro ódio. Se não for oferecida uma resistência a altura e logo, acabará sendo é tarde demais.
      Costumo comparar a realidade que vivemos com a ascensão nazista na Alemanha. Os judeus ignoraram ou responderam pacificamente às evidentes e intensas investidas contra seu povo, não reagiram, quando se deram conta, estavam sendo embarcados em trens para campos de concentração.
      Seria exagero meu? Talvez... ou não.

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